“Não te amo mais, queria dizer a ele, pela primeira vez, sem esperar que ele sofresse com isso. Sempre quis que ele sofresse com esse dia. Mas justamente porque eu não o amo mais, nem quero mais que ele sofra. Aliás, não quero mais nada. Só ir embora. Claro que sobrou um carinho, uma amizade, uma graça. Mas tudo aquilo que era gigantesco, tudo aquilo que parecia ser maior do que eu mesma, que me soterrava, que me transportava pra outra realidade… tinha acabado.
“Quer saber? Abraça o que é teu, abraça o que te faz bem, abraça o que te faz feliz.
“Cansei de me sentir sozinha. Cansei de tanta mentira. Cansei dos dias iguais, da rotina. Cansei de mim e de me deixar sempre em última opção. Cansei de procurar meus amigos. Cansei de mentir pra mim, pra ver se dói menos. Cansei de me preocupar com quem não se preocupa comigo. Cansei de sofrer e de acordar indisposta. Cansei de sentir o coração bater mais forte, com uma sensação de arrependimento, de erro. Cansei de tudo.
“Nunca abaixe a cabeça pra ninguém, nem levante o nariz alto demais.
Olho no olho já é suficiente.
“Você aí, e eu aqui. Nossos corações pedindo pra estarem colados um ao outro, mas á razão dizendo que não… Nossos olhares se cruzam a todo tempo, nossos passos querendo se aproximar. Minha boca querendo a sua, e a sua querendo a minha. Seu corpo pedindo o meu, e o meu pedindo o seu. Estamos tão próximos, mas ao mesmo tão longes.
“Mas de verdade eu só queria que alguém falasse para mim: ei, você é bonita, para de se expor tanto, pode ficar quietinha, pode fechar o decote, pode parar com esse riso nervoso, tô reparando em você, você é bonita.
“Trata-se de uma decepção diferente: Não tenho ódio, nem vontade de chorar. Em compensação também não tenho vontade de mais nada.
“Ela era forte, e sabia. Por isso andava sorrindo por aí, ignorando todas as suas dores.
“A gente quer tocar o céu, mas morre de medo de altura…
“Quero acordar do seu lado num domingo de manhã. Quero ver você me olhar entre um gole de café e outro, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a folhar o caderno de cultura. Quero a sua mão no meu cabelo, dentro do carro, no caminho do seu apartamento. Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa. Quero deitar do seu lado na rede, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado. Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Quero que você nunca mais deixe de pensar em mim.